Antes de mais nada essa postagem não tem como finalidade defender qualquer político que seja. Porém, irei usar a repercussão envolvendo o ex-senador e atual prefeito de Parnaíba-Pi, o doutor Francisco de Assis Morais Souza (popularmente conhecido como Mão Santa) ao fazer uma declaração polêmica que movimentou a mídia e a opinião pública. O objetivo desse texto é mostrar a confusão que fazemos ao confundir a ausência de provas com a prova de ausência.

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A polêmica começa com a seguinte fala do prefeito:

“Quando você bebe água, os germes, no caso os micróbios e vírus, estão na garganta, a água empurrar ele e vai para o estômago, aí o ácido clorídrico mata ele (o vírus), esteriliza ele. É muito mais importante você beber”

Diversos órgãos da imprensa (veja este e este) classificaram a fala do prefeito como mentirosa, outros jornais tomaram uma postura um pouco mais cautelosa (veja este). E para sustentar este argumento, se apoiaram na fala de um (ou mais, dependendo do jornal) médico infectologista. Um destes especialistas fez a seguinte declaração:

“A hidratação não é uma medida de prevenção contra o vírus. Beber água é fundamental para que nossos órgãos, sistemas, células funcionem adequadamente. Temos que ter ingestão de água significativa para que possamos manter o nosso corpo funcionando bem. Não há evidências de que hidratar simplesmente é prevenção”.

Observe que no início de sua fala o médico afirma: “A hidratação não é uma medida de prevenção contra o vírus”. E no final de sua fala ele se contradiz: “Não há evidências de que hidratar simplesmente é prevenção”. Se não há evidências de que a água ajude na prevenção, como podemos afirmar que ela não ajude? Ambos os médicos em suas falas erraram. Ambos afirmaram coisas sem comprovação científica.

Observe que todas as diferentes fontes citadas no quarto parágrafo deste texto, tem em comum o fato de que nenhuma cita um artigo científico ou qualquer trabalho experimental que prove a ineficácia da hidratação ou do ácido clorídrico em matar ou auxiliar no extermínio do vírus. O que há em todos é o apelo a autoridade. Nada contra buscar a opinião de uma autoridade, afinal todo processo de aprendizado se inicia com a crença em uma autoridade. Mas fica a pergunta, quem é a autoridade? O que eu preciso ter para ser considerado uma autoridade?

Observe que o diploma de medicina não foi suficiente para definir quem é ou não autoridade nessa questão, pois ambos são médicos. Para os jornalistas que escreveram essas matérias, só é autoridade em morte de vírus aquele que tem um diploma de medicina e, pelo menos, uma especialização em infectologia.

Autoridade vem de autor

Eu somente serei autoridade daquilo que eu sou autor. Diploma nenhum vai me fazer ser o dono da verdade. Afinal, todos somos falíveis. Quantos phds em economia não errarão sua previsões sobre quando aconteceria a próxima crise econômica? Quantos climatologistas não previram chuva num dia de sol? Quantos engenheiros não derrubaram um prédio? Quantos físicos não mataram pessoas expondo-as a radiação? Quantos pedagogos não se frustraram ao ver que sua pedagogia não funcionou como esperado em sala de aula? Você somente será autoridade naquilo que você foi o autor principal.

Porém, na vida real, estamos constantemente exposto a problemas novos para os quais ninguem esta preparado. Nestes casos, temos que escolher tomar alguma decisão e assumir as consequências desta decisão. Portanto, é necessário usar de primeiros princípios para formular uma teoria sobre algum assunto.

Neste sentido, podemos considerar que alguns trabalhos mostram que existe um efeito virucida na utilização de alguns ácido contra alguns tipos de vírus (veja esta referência, e esta). Desta forma, é razoável pensar que talvez o ácido clorídrico possa ter também algum efeito virucida. Embora, até o momento que eu escrevo este texto não haja (ou pelo menos eu não encontrei) nenhuma comprovação experimental.

Especialistas tem um viés cognitivo

O economista comportamental e psicólogo Daniel Kahneman ganhador do prêmio Nobel de economia de 2002, explica em seu livro Thinking, Fast and Slow sobre como erros graves na cognição nos impedem de sermos os pensadores racionais que desejamos ser.

Outra possível causa dos erros dos especialistas, é apontada no livro A sabedoria das multidões de James Surowiecki, onde ele explica que “a reverência ao conhecimento tende a ser acompanhada de um desdém pelo que não é tão conhecido”.

Por fim, recomendo a leitura do livro: A tirania dos especialistas. Muito obrigado a quem leu todo o texto. Aceito críticas e sugestões.

Uma resposta a “Ausência de provas não é prova da ausência”

  1. […] O argumento que afirma sobre a não-existência de algo baseado na ausência de uma prova de existência é uma falácia. Especificamente, a falácia Argumentum ad ignorantiam (apelo à ignorância). Essa falácia leva a contradições lógicas, por exemplo: “Ninguém conseguiu provar que Deus existe, logo ele não existe”. Mas igualmente é possível argumentar: “Ninguém conseguiu provar que Deus não existe, logo ele existe”. Consiste justamente daquele famosa frase: “ausência de provas não é prova da ausência“. […]

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