O conteúdo deste post representa a opinião do autor (eu mesmo) e não representa necessariamente a visão formal da igreja católica.

O medo da morte não deve nortear nossas vidas

As dificuldade existem para que você possa perceber o valor que as coisas possuem. Por exemplo, quando somos assaltados e o bandido nos da uma escolha, “ou o dinheiro ou a vida”, somos confrontados com a necessidade de escolher aquilo que para nos tem mais valor. É com a dificuldade que a hierarquia de valores se faz evidente. Acabamos por optar pela nossa vida pois esta tem mais valor que o dinheiro.

Em meio a pandemia muitos cristãos estão tendo que tomar a decisão de não ir a missa ou ao culto por medo de contaminação própria ou de terceiros. Com isso, somos mais uma vez confrontados com a hierarquia de valores. O que vale mais receber os sacramentos ou a minha vida e/ou a vida de terceiros?

Respostar possíveis são: “a vida vem em primeiro lugar”, “não faço isso por min mas pelos outros”, “se for pecado, estando vivo eu poderei pedir perdão pois Deus é misericordioso”, etc.

A vida é o maior bem do homem? E a liberdade? Não seria ela um bem maior que a própria vida? Não seria o direito de tirar/arriscar a própria vida um bem maior que a vida em si? Seria bom que um doente em enfermidade “permanente” podece ter a liberdade de tirar a própria vida (fazer uma eutanásia)? Bem, como denuncia o titulo desse post, nem um nem outro são os bens máximos do indivíduo. E no restante desse texto eu apresentarei minhas razões para crer nisto.

O catecismo da igreja afirma que a moralidade de um ato depende de três coisas:

  1. Do objeto
  2. Da intenção
  3. Do resultado

Em 1, temos a “coisa” realizada. Por exemplo, seria imoral um pai beijar uma filha na boca? Para a maioria das pessoas que moram no ocidente essa ação seria vista como imoral. Mas, em algumas culturas, principalmente no oriente, um toque de lábios é uma simples demonstração de afeto, sendo comum inclusive entre dois homens. A moralidade não pode ser bem definida apenas pelo objeto, é necessário analisar todos os 3 itens acima.

Continuando com o objeto do “beijo entre um pai e uma filha”, precisamos analisar o segundo ponto. Qual a intenção da ação? Se a intenção é a de demonstrar afeto, não temos elementos para julgar esse ato como imoral. Mas, por exemplo, se a intenção é despertar no outro um desejo sexual, então temos claramente um ato imoral.

O terceiro item é um pouco mais complexo de analisar. Por exemplo, seria imoral beber álcool? O objeto é a bebida. A intenção poderia ser, por exemplo, criar um estado de descontração. O resultado, poderia ser o de induzir o indivíduo a realizar atos que fogem do seu controle como matar uma pessoa no transito ou cometer agressões e estupros.

Mas o que isso tem haver com a hierarquia de valores?

A preservação da vida é invocada como bem máximo,e por isso, justificamos esse ato como moral. Afinal, poderia-se justificar usando o trecho que diz: “prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão”.

Sempre é verdade mas a vida neste caso não esta limitada a vida terrena. Temos que mais uma vez fazer a devida hierarquia de valores. E além disto, temos que separar quem toma a decisão de quem recebe o benéfico ou malefício, quando estes estão devidamente separados.

Considere a seguinte situação hipotética. Um homem e sua esposa estão esperando um bebê. No dia do parto acontecem complicações. O médico diz que somente é possível salvar um dos dois: ou a mãe ou a criança.

Primeiramente, para julgar a moralidade da tomada de decisão temos que separar quem toma a decisão e quem sofre a decisão. Por exemplo, poderia a mãe ser condenada por um decisão exclusiva do pai? Obviamente que não. Esta situação é semelhante ao que acontece com alguém que sofre um estupro. A pessoa estuprada não se torna menos casta por ter sofrido essa violência, a castidade é antes de tudo uma intenção do indivíduo. Ninguém pode ser considerado impuro se não tiver consentido com o ato, mesmo que o ato traga marcas corpóreas de violação sexual (perca do hímen no caso das mulheres). Assim, mesmo que o pai tome a decisão (sem consultar a mãe) de priorizar a vida da mãe em detrimento da do filho, a mãe não poderá ser julgada como tendo realizado um aborto, mas o pai obviamente será.

Se a mãe (ou o casal) optar por dar prioridade ao salvamento da vida da mãe e o filho vier a óbito, no pós vida estes serão julgados por esta ação e, se condenados, poderão passar a vida eterna no inferno. Ou seja, a mãe (ou o casal) ao optar por tomar uma decisão que lhes dava mais alguns anos de vida na terra condenarão-se a uma eternidade de sofrimentos no inferno. Essa não foi uma decisão inteligente. Por outro lado, se a mãe (ou o casal) tomar a decisão de priorizar a vida do filho em detrimento da mãe, essa atitude será vista como um “ato de amor”, e portanto, ao menos no que diz respeito a tomada desta decisão, eles possivelmente não serão condenados. Neste caso, houve um abreviamento da vida terrena com o possível ganho da vida eterna no paraíso.

Como basta um exemplo contrário para que uma teoria se mostre errada (ou, no mínimo, incompleta), então depreende-se do exposto acima que existe ao menos um bem superior ao bem da vida que seria a salvação da alma.

E a liberdade? Seria ela o maior bem do homem? Se for, então é justificável que uma pessoa gravemente enferma tenha a liberdade de praticar uma eutanásia, uma vez que a liberdade seria um bem maior que a vida.

Como dissemos o sofrimento existe para que sejamos obrigados a optar entre coisas e poder assim hierarquizar o que tem mais valor. É com o sofrimento que nós somos forçados a fazer escolhas entre coisas que gostamos mas não podemos possuir simultaneamente. Tendemos a ver o sofrimento como algo negativo. Para quem acredita em Deus o sofrimento muitas vezes parece ser um ato punitivo de um Deus que, por permitir a punição, não poderia ser de todo misericordioso. Mas até no sofrimento há algo de belo.

O sofrimento quando voluntário e dedicado a uma causa maior que o bem negado, é automaticamente visto como um ato nobre. Mas e quando o sofrimento é infligido de forma involuntária e injusta? Como, por exemplo, um motociclista que perde a liberdade de andar por causa de uma colisão de trânsito causada por um terceiro. Para a hierarquização de valores, pouco importa se o sofrimento foi ou não justo, se ele foi ou não voluntário. Nós somos confrontados com a necessidade de ter que escolher o que é mais importante, para com as limitações impostas pelo sofrimento possamos dedicarmos somente a aquilo que tem mais valor. Se uma pessoa gravemente enferma opta por morrer, o sofrimento perde seu propósito.

A liberdade não pode ser o bem maior do homem. Afinal. o que poderia ser maior que a vida eterna no paraíso? De que me adiantaria ter a liberdade para me condenar ao inferno se eu não extrair um benéfico desta decisão? De que me adianta ganhar uma vida terrena de valor inestimável (mas temporalmente finita) e condenar-me a uma eternidade no inferno? Do que me adianta viver uma vida regada aos prazeres rápidos e intensos (como o uso de drogas) mas privada de prazeres lentos mas duradouros?

Conclusão

Você tem que optar, ou acredita que existe uma vida após a morte que é infinita e pode ser plenamente boa ou plenamente sofrida, ou você não acredita na vida após a morte e neste caso faz sentido acreditar que a vida terrena e a liberdade são os maiores bens do homem.

As duas coisas não podem coexistir.

Alguém poderia argumentar sobre uma terceira via (não católica), sobre a possibilidade de reencarnação. Mas já adianto que essa via em nada prejudica o raciocínio apresentado nesse post. Mas para que esse texto não fique muito longo, dedicarei esse detalhe para u outro post.

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