Aqui, pretendo apenas fazer uma crítica a falsa rivalidade entre fé e razão.

Desprezo da fé por parte daqueles que veneram a ciência

Cérebro, Cabeça, Psicologia, Mente Fechada
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Há, principalmente no meio acadêmico, aqueles que são tão presunçosos da sua capacidade mental que julgam ser capazes de compreender toda a natureza das coisas pelo próprio intelecto. Para estes, “todas as ideias devem ser testadas e estar sujeitas ao escrutínio rigoroso e estruturado da comunidade”. Daqui para frente, irei chamar de “gentios” todos os que defendem esse pensamento.

Os gentios julgam que tudo que pode ser considerado verdadeiro precisa necessariamente passar pela observação, teorização, experimentação, análise e conclusão a isto chamam de ceticismo científico. Assim sendo, para eles, tudo que não pode ser experimentado não pode ser considerado como verdadeiro e recebe o rótulo de crença.

Para os gentios, é evidente a existência de cisnes negros, mas estes não acreditarão se eu disser que existem cisnes azuis, pois nunca viram tal espécie. Até que eu prove, por meio da experimentação, que os cisnes azuis existem, a informação de sua existência não deve ser acreditada.

O argumento que afirma sobre a não-existência de algo baseado na ausência de uma prova de existência é uma falácia. Especificamente, a falácia Argumentum ad ignorantiam (apelo à ignorância). Essa falácia leva a contradições lógicas, por exemplo: “Ninguém conseguiu provar que Deus existe, logo ele não existe”. Mas igualmente é possível argumentar: “Ninguém conseguiu provar que Deus não existe, logo ele existe”. Consiste justamente daquele famosa frase: “ausência de provas não é prova da ausência“.

Exemplificando, os gentios não creem nos milagres bíblicos como: a cura de doenças ou ressureição dos mortos. Quando se deparam com os testemunhos vividos dos milagres da fé, cuja explicação fenomenal não é conhecida, os gentios se contradizem e assumem que a explicação do fenômeno necessariamente existe, mas ainda não é conhecida.

Pelo que acima foi dito, a ideia escrita em vermelho no quarto parágrafo deste texto não pode ser crida como sempre verdadeira. A crítica que faço não é direcionada ao ceticismo proximamente dito, mas na crença do ceticismo como uma virtude. Nem sempre ser obsessivamente cético é uma atitude inteligente. Sobre isto, observe o que diz o físico Erwin Schrödinger,

O ceticismo em um homem que chegou mais perto da verdade do que qualquer um antes, e ainda reconhece claramente os limites estreitos de sua própria construção mental, é grande e fecundo, e não reduz, mas dobra o valor das descobertas.

Erwin Schrödinger, Nature and the Greeks and Science and Humanism

Além de tudo o que já foi dito, a crença de que todo o conhecimento acessível à mente humana seja acessível apenas pela via racional em nada contradiz as verdades da fé. Veja, por exemplo, o que diz São Tomaz de Aquino:

… Para min, portanto, é coisa sumamente certa que jamais devo me afastar da autoridade de Cristo, pois não encontro nenhuma que seja mais eficaz. Mas esta deve ser perseguida usando de uma razão subtilíssima. Assim, já estou plenamente disposto e desejo impacientemente compreender o que seja verdadeiro, não só através da fé, mas também do intelecto. Nesse ínterim, confio poder invocar junto aos platônicos um ensinamento que de modo algum destoa de nossas Escrituras Sagradas.

Santo Agostinho, Suma contra os gentios.

Por tudo o que foi dito até aqui, encerro essa seção dizendo que ao contrário do que dizem os gentios, não é leviano crer no transcendente. Como aqueles que segundo São Pedro, seguem fábulas engenhosas:

Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade.

2 Pedro 1:16
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Desprezo da ciência por parte daqueles que veneram a religião

No meio religioso há muitos que desprezam ideias e conceitos científicos. Muitas teorias cientificas sofreram fortes resistências por parte dos religiosos que em muitos casos não entendia do que a teoria tratava mas acreditavam que esta iria contra os ensinamentos bíblicos. A teoria da evolução de Darwin e a idade da terra são exemplos notáveis.

O cético religioso tem como princípio o fato de que tudo que esta escrito na bíblia é infalível (observe que eu não usei o termo “ceticismos religioso” porque, estranhamente, a literatura usa-o para designar ceticismo em relação às doutrinas da fé, o que contrasta com o termo “ceticismo científico”, pois este não significa ceticismo à teorias científicas). A infalibilidade da bíblia pode ser verificada nos versículos:

“Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça”. (2 Timóteo 3:16)

e

“Antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal, pois jamais a profecia teve origem na vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo”. (2 Pedro 1:20-21)

Ora, como tudo que esta escrito na bíblia foi inspirado por Deus (e como Deus não erra), portanto concluísse que nada que está escrito na bíblia pode estar errado. Este entendimento, embora correto dentro da doutrina cristã, precisa ser bem compreendido. Nas palavras de São Tomas de Aquino,

Ora, o conhecimento dos princípios naturalmente evidentes é infundido em nós por Deus, pois Deus é o autor da natureza. Por conseguinte, esses princípios estão também contidos na sabedoria divina. Assim também, tudo que é contrário a eles contraria a sabedoria divina e não pode estar em Deus. Logo, as verdades recebidas pela revelação divina não podem ser contrárias ao conhecimento natural.

Santo Tomaz de Aquino, Suma contra os gentios

Em outro trecho do mesmo livro ele continua,

Além disso, o que é natural não pode mudar, se a natureza permanece. Ora, opiniões contrárias sobre uma só coisa não podem subsistir no mesmo sujeito. Logo, Deus não infunde no homem conceitos e verdades de fé contrários ao conhecimento natural… Mas, porque esta palavra está acima da razão, foi tida por muitos como contrária a ela. Mas isto é impossível.

Portanto, se uma interpretação de uma passagem bíblica leva a um entendimento que aparenta contra dizer a razão, então, o mais provável é que a interpretação precisará ser revista.

Cérebro, Cabeça, Psicologia, Mente Fechada
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Por exemplo, há quem interprete as passagens bíblicas para afirmar que a idade da terra teria em torno de 6000 anos. Em nenhum momento na bíblia isto é dito literalmente, mas os defensores da “teoria da terra jovem” afirmam que analisando as idades dos descendentes de adão até jesus, e somando-se o anual atual, seria possível chegar a esse valor de 6000 anos. Mesmo que essa interpretação fosse consensual entre os teólogos (e ela não é), como os dados obtidos pela vias racionais levam a crer que a terra teria uma idade muito maior do que essa, logo a única coisa que podemos afirmar é que: para que a bíblia esteja certa, essa conta deve estar errada.

Eu não quero entrar aqui na polêmica de porque esta conta estaria errada (vou deixar que a curiosidade do leitor o leve a algum site de busca). Mas o que realmente importa aqui é que a infalibilidade é da bíblia e não da sua interpretação do que nela esta escrito.


Neste texto, critiquei a postura de acadêmicos (céticos) e religiosos (fanáticos) em relação a suas “contrapartes”. Demonstrei que ambos, ao tentar subjugar a posição do outro, contradizem a si mesmos. Meu objetivo é tentar mostrar que ciência e religião não são rivais, mas que precisam se complementar para que possamos nos aproximar da verdade. Afinal, o começo de qualquer processo de aprendizado é a crença. Se o aluno não acredita naquilo que houve, ele jamais passará pelos demais estágios do aprendizado até pode dizer que sabe. Da mesma forma, para crer que o que está escrito é verdadeiro, precisamos antes de mais nada compreender.

As palavra de Santo Agostino resumem bem o que foi acima dito: “É preciso compreender para crer, e crer para compreender“.

Agradeço ao leitor que chegou até aqui.

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