E seu eu lhe disser que você não odeia ninguém? E digo mais, ninguém te odeia. Vou aqui defender esta tese.

Motivo 1: odiamos atos e não pessoas

O temperamento típico daquele que odeia é o da ira. Quando sentimos raiva dirigida a uma pessoa, esta está relacionada a um ato que a pessoa praticou: uma palavra ofensiva, uma injustiça, uma agressão, etc. Para odiar alguém você precisa odiar o ser daquela pessoa. O ser de alguém não se limita aos seus atos. O ser representa o que a pessoa é.

Por exemplo, poderíamos hipoteticamente dizer que cuscuz com feijão é ruim, mas cuscuz com manteiga é bom. O que isso me diz sobre o cuscuz ser ou não bom? Nada. Da mesma forma, uma agressão ou a doação de um órgão não fazem da pessoa um abominável ou um santo. A pessoa já era abominável ou já era santa antes do ato. O ato apenas atua para tornar reconhecível a pessoa como abominável ou santa.

Nós odiamos o pecado e não o pecador.

Motivo 2: nem todo ato é intencionado

O ato é aquilo que surge da tomada de decisão. Porém, nem todo ato é intencionado. Muitas vezes nós mesmo nos perguntamos: “porque foi que eu fiz aquilo?”. Se, as vezes, nem o autor sabe porque cometeu “aquilo”, muito menos você saberá. Portanto, o ódio é dirigido ao ato e não a pessoa. Isso obviamente não exime a responsabilidade do autor do ato de suas consequências.

Motivo 3: tudo que você julga saber é uma interpretação da coisa em si

Quando eu me irrito com você por causa dos seus pecados eu estou lhe amando, pois desejo te ver livre deles. Mas, quando eu me irrito com você por causa daquilo que, julgando conhecer, na verdade desconheço, então quem está pecando sou eu (e assim, o ódio aumenta em quantidade e intensidade). Por exemplo: quando o marido passa a sentir raiva da mulher por uma traição que ele julga ter ocorrido, mas na verdade não houve.

Motivo 4: você não é tão significante quanto pensa para poder ser odiado.

Para que um ser possa ser odiado por si só e não apenas por um ato, este ser precisaria ser indubitavelmente reconhecido como o puro mal (por razões que tornaria esse texto muito longo resolvi omitir).

Conclusão:

Eu não quero levar o meu leitor a crer que seus atos não exijam reparos. Cada pecado exige uma penitência. Caso contrário não haverá perdão. Meu desejo é que esse texto possa inspirar aqueles que se sentem envergonhados por um erro do passado a tentar reverter a maneira como as pessoas te julgam. Você não é mais a mesma pessoa que cometeu aquele erro. O seu ser vai sendo alterado a todo tempo.

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