No Brasil desde a constituição de 1988 houveram apenas duas eleições onde os candidatos eleito teve a maioria dos votos já em primeiro turno. Foram nos anos de 1994 e 1998 com Fernando Henrique Cardoso.

Em todas as outras eleições, o candidato eleito não era aquele que tinha o mais “querido” pela população. Qual seria então a razão desta falta de representatividade na hora de escolher um candidato? Existem vários modelos de votação, e cada um conta uma história diferente sobre o que é “justo”. Neste artigo, eu aponto os principais modelos de eleição e suas vantagens e desvantagens. Por simplicidade vou assumir que não existe voto nulo.

Votação por maioria simples

Descrição:
Cada pessoa vota em um candidato. O mais votado vence, mesmo que não tenha a maioria absoluta.

Exemplo:
João: 40 votos
Maria: 35 votos
Pedro: 25 votos
→ João vence.
Mesmo que 60% preferissem qualquer um menos o João.

Vantagens:
Simples e rápido.
Fácil de apurar.

Desvantagens:
Pode eleger alguém rejeitado pela maioria.
Incentiva o voto “no menos pior”. Por exemplo, “eu vou voltar no fulano só porque não quero ver o sicrano ganhar”.

Votação em dois turnos

Descrição:
Se ninguém atinge 50% no primeiro turno, os dois mais votados vão para o segundo.

Exemplo:
1º turno:
João: 40 votos
Maria: 35 votos
Pedro: 25 votos

2º turno:
Pedro sai. Os votos dele migram.
20 votam em Maria, 5 em João.
Resultado:
Maria vence com 55 votos contra 45.

Vantagens:
O vencedor tem maioria real dos votos válidos.
Dá chance de alianças.

Desvantagens:
Mais caro e demorado.
Continua existindo o voto “no menos pior”. Porém atenuado pelos acenos que os candidatos farão para conquistar esses votos.

Votação ranqueada

Descrição:
Cada eleitor ordena os candidatos por preferência (1º, 2º, 3º…).
Se ninguém tem maioria, o último colocado é eliminado e seus votos vão para a próxima preferência indicada.

Exemplo com 100 eleitores:
40 votam: 1º João, 2º Maria, 3º Pedro
35 votam: 1º Maria, 2º Pedro, 3º João
25 votam: 1º Pedro, 2º Maria, 3º João

1ª rodada:
João: 40
Maria: 35
Pedro: 25 → eliminado

Os 25 votos de Pedro vão para Maria (segunda opção deles).

2ª rodada:
João: 40
Maria: 35 + 25 = 60
Maria vence.

Interpretação:
João era o mais popular entre um grupo pequeno, mas Maria era a opção aceitável no geral.

Vantagens:
Representa melhor o consenso.
Evita voto útil.
Reduz o efeito de candidatos “divisores”.

Desvantagens:
A contagem é mais complexa.
O resultado pode parecer estranho a quem espera o “mais votado” no topo da lista.

Votação por aprovação

Descrição:
O eleitor pode votar em quantos candidatos quiser.
Ganha quem tiver mais aprovações.

Exemplo:
Candidato Aprovações
João 70
Maria 65
Pedro 40

João vence porque a maioria o considera “aceitável”, mesmo que poucos o amem.

Vantagens:
Recompensa candidatos moderados.
Reduz polarização.

Desvantagens:
Não mede intensidade da preferência.
Eleitores podem marcar quase todos “só pra garantir”.

Votação por Nota

Descrição:
Cada eleitor dá uma nota (0 a 10, por exemplo) para cada candidato.
Vence quem tiver a média mais alta.

Exemplo:
Média das notas
João 7,5
Maria 7,2
Pedro 4,0

João vence, independentemente de ser o mais preferido da maioria— apenas o “menos odiado”.

Vantagens:
Mede intensidade da preferência.
Evita extremos.

Desvantagens:
Difícil de aplicar em larga escala.
Incentiva manipulação de notas (“10 pro meu e 0 pros outros”).

Votação por confronto direto com eliminação – “Torneio”

Funciona como um campeonato de UFC político. Os candidatos se enfrentam em duelos diretos, e quem vence cada confronto avança para a próxima rodada. No fim, sobra apenas o campeão — o mais resistente na sequência de embates.

Exemplo:
Rodada 1: João vence Pedro.
Rodada 2: Maria vence Carlos.
Final: João enfrenta Maria → Maria vence e leva o cinturão eleitoral.

Vantagens:
Transforma a eleição em uma sequência de disputas claras e diretas.
Permite comparar candidatos em pares, o que facilita a escolha.

Desvantagens:
Depende da ordem dos confrontos: um candidato forte pode cair cedo se enfrentar outro popular logo no início.
Demorado e tende a virar espetáculo em vez de debate político.

Votação por pontos – “campeonato”

Descrição:
Aqui, cada candidato enfrenta todos os outros em duelos diretos, como num campeonato de futebol. A cada confronto, quem ganha leva 3 pontos, empate dá 1 para cada, e derrota vale 0. No fim, vence quem acumulou mais pontos no placar geral.

Exemplo:

  • João vence Maria → João +3
  • Maria empata com Pedro → Maria +1, Pedro +1
  • Pedro vence João → Pedro +3

Pontuação final:
João: 3 pontos
Maria: 1 ponto
Pedro: 4 pontos
Pedro vence o campeonato eleitoral.

Vantagens:
Compara todos os candidatos entre si.
Evita eliminações prematuras e mostra quem é consistentemente mais aceito.

Desvantagens:
Demorado e exige muitas comparações.
O público pode se perder nas contas — especialmente quem ainda erra o placar do Brasileirão.

Conclusão

Cada sistema muda o enredo da eleição.
No de maioria simples, João vence, mesmo rejeitado pela maioria.
No de dois turnos e no ranqueado, Maria vence por ser a opção mais aceitável.
No de aprovação, João pode voltar a vencer, por ser o mais “tolerável”.
No de nota, o resultado depende das médias — o campeão dos “7,5” é novamente João.
No torneio, Maria conquista o cinturão depois de eliminar adversários um a um.
E no campeonato por pontos, Pedro leva o troféu por ter o melhor desempenho geral.

Nenhum sistema é perfeito. Cada um revela uma faceta diferente do que chamamos de “vontade popular”, que muda conforme a regra do jogo.

A curto prazo as regras do jogo mudam as características dos jogadores. Porém, a longo prazo somos nós que mudamos as regras do jogo.

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